O Fascismo na Itália
“A luta dos liberais deveria ser
concentrada na quebrar da espinha dorsal do totalitário Estado brasileiro
(falido, corrupto e perdulário), e não na inútil luta contra os governantes da
moda”. (Ricardo Bergamini).
Causas
Sentimento de nacionalismo
humilhado (desde a anexação da Tunísia, pela França, em 1881, e a derrota de
Ádua, perante os abissínios, em 1890); sentimento de revolta – após a I Guerra
Mundial – contra o não cumprimento integral das promessas dos Aliados. Os
italianos receberam menos do que esperavam; inflação, carestia da vida,
especulação dos aproveitadores. Queda das exportações e dos negócios. Caos
econômico; crescimento do partido socialista (1/3 da Câmara dos Deputados, em
1919). Radicalismo econômico e político dos socialistas (operários socialistas
assumem o controle de quase 100 fábricas); influência da filosofia hegeliana:
supremacia do Estado. “Nada pelo indivíduo, tudo pela Itália”; fraqueza do
regime parlamentar: queda freqüente dos ministérios, pela falta de maioria na
Câmara. Luta constante entre os dois maiores partidos. O Socialista e o Popular
(católico).
O movimento fascista começou em
1919. Sua primeira doutrina redigida por Mussolini (antigo agitador socialista),
era assaz radical: “sufrágio universal, a abolição do Senado, a instituição
legal da jornada de 8 horas, um pesado imposto sobre o capital, o confisco de
85% dos lucros de guerra, a aceitação da Liga das Nações, a oposição a todos os
imperialismos, e a anexação do Fiúme e da Dalmácia“.
Em 1920, essa plataforma foi
substituída por uma de caráter mais conservador. No novo programa desapareceram
os argumentos em prol duma reforma econômica. Condenava-se apenas, dubiamente,
“o socialismo dos políticos”, e reclamava-se o cumprimento de algumas promessas
feitas pelos aliados durante a guerra. Nenhum dos dois programas trouxe algum
prestígio apreciável aos fascistas. Em 1922, quando se apoderaram do governo,
os fascistas só possuíam 35 deputados, na Câmara – num total de 500.
Mesmo assim, apesar do seu
reduzido número, os fascistas – disciplinados e agressivos – marcharam sobre
Roma e tomaram o poder. A famosa “marcha sobre Roma”, dos camisas-pretas
(milicianos fascistas), foi apenas simbólica: eles só se arriscaram depois que
o rei Vitor Manuel se negou a decretar o estado de sítio, como reclamava Facta,
o último democrata.
Em 28 de outubro de 1922, sem
disparar um só tiro e sem oposição da polícia, do exército ou do governo,
50.000 camisas-pretas “ocuparam” Roma. O primeiro-ministro demitiu-se e
Mussolini foi convidado pelo rei a organizar um novo gabinete. Assim, em meio
ao caos do pós-guerra, e pela ausência, em certas camadas do povo italiano, de
apego ao regime democrático, os fascistas assumiram o poder, no qual ficaram
durante 21 anos.
Características do Fascismo
Italiano
Estado corporativo – Fundamentos
econômicos, mas subordinação do Capital e do Trabalho ao Estado. Proibição de
greves e locautes.
Totalitarismo – Negação dos ideais
liberal-democráticos. Absoluta soberania do Estado, que deve ser governado por
uma elite forte e audaz. “A liberdade é um cadáver em putrefação, um dogma
cediço da Revolução Francesa”. Só pode existir “um partido fascista, uma
imprensa fascista e uma educação fascista”.
Nacionalismo – O internacionalismo
é “uma grosseira perversão do progresso humano”. A nação deve ser grande e
forte, “pela auto-suficiência, por um poderoso exército e pela rápida elevação
do índice de natalidade”.
Idealismo – O fascismo se opõe à
interpretação materialista da história. É, sobretudo, contra o materialismo e
dialética dos marxistas.
Romantismo – Antiintelectualismo.
Não é a razão que resolve os grandes problemas nacionais, mas “a fé mística, o
auto-sacrifício e o culto do heroísmo e da força”. “O espírito fascista é
vontade, não intelecto”.
Militarismo – As nações que não se
expandem – morrem. “A guerra exalta e enobrece o homem, e regenera os povos
ociosos e decadentes”.
“O regime fascista, escreve
Taunay, mais oportunista que baseado em considerações doutrinárias, procurando
sempre se adaptar às condições do momento, pode ser caracterizado pelo
nacionalismo agressivo, pela ação antiparlamentar, pela ambição de adquirir
prestígio internacional e conquistar colônias. No poder, não admitiram os
fascistas qualquer oposição e assim foi suprimida a liberdade de imprensa,
proibido o funcionamento de outros partidos e instituída uma justiça especial
para julgamento dos crimes políticos. O desemprego foi combatido com a
instalação de organizações profissionais, e com o incentivo do comércio e da
indústria, ambos submetidos ao controle governamental: obras públicas, algumas
mesmo monumentais, foram realizadas, e assim, de um modo geral, todas as
atividades italianas tiveram o apoio do governo, que interferia na atuação da
família, das organizações profissionais e a economia”.
Algumas Realizações do Fascismo
Reduziu o analfabetismo;
solucionou a contenda com a Santa Sé (tratado de Latrão); eliminou a Máfia, na
Sicília; melhorou a agricultura; intensificou a produção industrial (sobretudo:
seda, rayon e automóveis); duplicou a força hidroelétrica; obteve grandes
progressos na drenagem de pântanos.
Há, porém, o reverso da medalha.
Embora aumentassem as horas de trabalho, o padrão de vida dos assalariados não
melhorou. Ademais, a estabilidade e a ordem imposta pelo fascismo exigiram do
povo italiano uma esmagadora “uniformidade de pensamento e ação”.
O governo fascista atirou-se a duas dispendiosas aventuras no setor das guerras estrangeiras: A conquista da Etiópia (1935-1936); intervenção aberta (ao lado dos nazistas) na guerra civil da Espanha (1936-1939), em prol de Franco, “representante dos elementos conservadores e fascistas espanhóis (nobreza territorial, clero e forças armadas)”. O governo legal de Madrid foi derrotado e a República Espanhola suprimida.
Todavia, “havia poucos indícios de
que quaisquer uns desses empreendimentos tivessem sido bem recebidos pelo povo
italiano, ou de que os proveitos para o país viessem a compensar os sacrifícios”.
O
autor é Professor de Economia. rberga@tutopia.com.br