“No
Brasil, somente os contribuintes não têm direitos adquiridos”.(Ricardo
Bergamini).
Em fins do século XIX e começo do
século XX, as grandes potências (embora com algumas vacilações e recuos)
foram-se agrupando em sistemas rivais de alianças múltiplas. As alianças – subtende-se militares – foram,
na essência, defensiva e, portanto, pacíficas. Todavia, resultaram
contraproducentes: criaram um ambiente de desconfianças e temores,
intensificaram o militarismo e acabaram sendo, justamente, uma das principais
causas da deflagração da guerra. Aos motivos militares das alianças
acrescentaram-se, naturalmente, interesses econômicos, ambições imperialistas e
suspicácias nacionalistas.
Bismarck é considerado o criador
da política das alianças. Vencedor da França em 1870 pretendeu garantir para
sempre os resultados da vitória alemã. Assim, pois, a fim de evitar que os
franceses tentassem uma guerra de “revanche”, o chanceler alemão tratou de isolar
a França. Conseguiu organizar, em 1873, uma aliança entre a Alemanha, a
Áustria-Hungria e a Rússia – a chamada “Liga dos Três Imperadores” (que
lembrava a “Santa Aliança” de 1815).
Em 1878, porém, após o Congresso de Berlim, a Rússia desligou-se da aliança (por não terem sido atendidas as reivindicações russas nos Bálcãs). Mas em 1882, a Itália – irritada contra a expansão colonial na Tunísia – aderiu aos dois impérios centrais. Formou-se, assim, a Tríplice Aliança (Alemanha, Áustria e Itália). E, fato relevante, a Alemanha conseguiu reconquistar a amizade da Rússia.
Enquanto isso, a França permanecia
só. Achava-se afastada da Inglaterra, por questões coloniais; e da Rússia, por
divergências ideológicas em matéria de governo.
Em 1890, porém, a situação começou
a alterar-se profundamente. O novo kaiser Guilherme II despediu o velho
Bismarck. E, ao tentar um entendimento com a Inglaterra, deixou de lado a
Rússia. Isto permitiu uma aproximação entre a democrática França e o
autocrático império czarista. “Em 1890 a Rússia e a França iniciaram um namoro
político que, aos poucos, amadureceu numa aliança”.
A Grã-Bretanha, por sua vez, alarmada com a expansão marítima e colonial da Alemanha, abandonou seu “esplêndido isolamento” e foi-se aproximando da França. Esta apagou vários ressentimentos (sobretudo o incidente de Fachoda, de 1898) e estabeleceu com a antiga rival uma “Entente Cordiale”. Não se tratava de uma aliança militar, formal, mas de um acordo amigável sobre diversas questões, e a garantia de apoio recíproco perante eventuais problemas diplomáticos. Mais tarde, a habilidade diplomática francesa conseguiu aproximar russos e britânicos, eliminando suas rivalidades na Ásia Central. Isto permitiu que surgisse a Tríplice Entente (França, Rússia e Grã-Bretanha), que se opunha à Tríplice Aliança.
Parecia ter-se obtido, assim, o
“equilíbrio europeu”, mediante uma “paz armada”. Tratava-se na realidade de um
equilíbrio demasiado instável, a um preço excessivamente caro...”Si vis pacem,
para bellum”, diz o brocardo latino. Amarga ilusão... Porque, afinal, foi o
sistema de alianças que arrastou essas seis grandes potências, uma após outra,
à tremenda voragem da I Guerra Mundial.
A aliança anglo-japonesa
(1902-1930), dirigida contra o expansionismo russo no Extremo Oriente (os
japoneses entraram na I Guerra Mundial, lutando a favor dos Aliados e contra a
Alemanha).
A acordo franco-espanhol (1904)
sobre a delimitação das respectivas zonas de influência no Marrocos.
Tratado secreto (1900) entre a
França e a Itália. Esta dava carta branca aos franceses, no Marrocos; a França,
em compensação, reconhecia os “direitos italianos” sobre a Tripolitânia.
Acordo franco-italiano (1902),
garantindo recíproca neutralidade, caso um dos dois países fosse atacado por
uma terceira potência, ou fosse obrigado a declarar guerra. Este acordo abalou,
evidentemente, a solidez da Tríplice Aliança.
O
autor é Professor de Economia. rberga@tutopia.com.br