Outras Doutrinas e Movimentos
“O Brasil
é o único país do planeta, onde somos agiotas de nós mesmos”. (Ricardo
Bergamini).
O norte-americano Thorstein Veblen
(1857-1929) é um dissidente econômico ainda mais radical do que Marx. Foi,
talvez, o que pôs em evidência o grosseiro materialismo da época e o que mais
veementemente fustigou uma sociedade atolada na adoração do dinheiro.
Na sua obra mais famosa, “A teoria
da classe ociosa”, Veblen escreve: “A base sobre a qual a boa reputação em
qualquer comunidade industrial altamente organizada finalmente repousa é a
força pecuniária; e os meios de demonstrar força pecuniária e, mercê disso,
obter ou conservar o bom nome, são o ócio conspícuo e um consumo conspícuo de
bens”.
Para Veblen, a ineficiência, o
caos econômico, o desperdício, a miséria – provêm da psicologia humana. Há no
homem duas tendências básicas: uma construtiva (o amor, a ciência, a produção
de artigos de consumo) e uma destrutiva (a rapinagem, a superstição, o ritual
inútil, o amor à hierarquia, o amor ao desperdício).
De um lado estão os operários, os
engenheiros, os cientistas. Do outro lado: os monopolizadores, banqueiros,
advogados das grandes empresas, vendedores, anunciantes, políticos – os
rapinadores, os fazedores de dinheiro. Estes, em geral, dominam o sistema
econômico e o “empesteiam” de tendências destrutivas. Não se trata de uma luta
de classe no sentido marxista; mas de uma luta entre os fazedores de artigos de
consumo (produtores) e os fazedores de dinheiro (rapinadores). Veblen condenava
em forma categórica o sistema capitalista. Como Marx, era determinista
histórico. E acreditava que o capitalismo – ao menos na sua forma atual –
fatalmente haveria de desaparecer.
Os marxistas subdividiram-se, mais
tarde, em ortodoxos (rigorosamente fiéis aos ensinamentos de Marx) e
revisionistas (ou reformistas) ou, simplesmente, socialistas. Estes, em geral,
são socialistas moderados que desejam uma transformação pacífica e gradual da
sociedade capitalista.
Outras correntes: anarquismo
(Proudhon, Bakúnin, Kropótkin, Tolstói), sindicalismo (Sorel), georgismo (Henry
George: imposto único).
Organizações de trabalhadores.
Sindicatos ingleses.
O desaparecimento das corporações
medievais (grêmios, guildas) e das regras e restrições tradicionais (“preço
justo”, etc) provocou “um surto de novos tipos de homens de negócios, sem
escrúpulos e impiedosos” (Woodward). Na Inglaterra, os trabalhadores começaram,
então, a organizar-se em sociedades. “Essas organizações, surgidas em Londres
no século XV, foram as precursoras do sindicalismo moderno. Durante longos
anos, os sindicalistas foram perseguidos como rebeldes e revolucionários”
(Friedlaender e Oser).
A mecanização proletarizou a classe operária. A solidariedade obreira, nascida ao pé da máquina, nas fábricas da Grande Indústria – criou o espírito sindical. Daí surgiu a arregimentação operária, em sindicatos de classe.
“Os operários da
Inglaterra foram os primeiros no mundo que conquistaram o direito de
organização sindical, e isso aconteceu ainda na primeira metade do século XIX.
Graças a essa circunstância, a situação dos operários ingleses era um pouco
melhor do que a dos operários do resto do continente europeu. Com exceção dos
Estados unidos, a camada formada pela aristocracia operária era também mais
ampla do que em qualquer outro país. Todavia, uma grande parte da classe
operária vivia em condições de quase absoluta indigência” (Jvestov e Zubok).
Na
França, a sindicalização operária somente obteve personalidade civil e jurídica
em 2 de março de 1884 (lei Waldeck Rousseau).
Em sua essência, o anarquismo visa
a conquistar o máximo de liberdade para o indivíduo. Condena, por isso, o
Estado coercitivo, isto é, o governo baseado na força. Para o anarquismo, o
Estado e a propriedade privada são os dois maiores males da civilização
moderna.
Já mencionamos Proudhon, que é
considerado o precursor do anarquismo. Mais espetacular do que Proudhon foi o
aristocrata russo Mikhail Bakúnin (1814-1876). Tendo participado da revolução
parisiense de 1848, foi condenado à morte e entregue aos russos. Desterrado à
Sibéria, conseguiu fugir, via Japão e Estados unidos.
Bakúnin, pai do anarquismo
terrorista, aprovava a propriedade coletiva da terra e de outros meios de
produção; admitia a propriedade privada dos bens de consumo. Neste aspecto, era
comunista. Mas opunha-se à conservação do Estado. Rejeitava, com veemência,
toda idéia de governo e preferia confiar na livre cooperação de grupos
independentes.
O príncipe russo Piotr Kropótki
(1842-1921) condenava a violência individual; preferia enfraquecer e eliminar o
Estado, com métodos pacíficos, mediante a catequização do povo.
O conde russo Leão Tolstói
(1828-1910), grande literato e filósofo, é o mais famoso dos anarquistas
coletivistas. Tolstói baseava sua doutrina nos ensinamentos de Jesus:
humildade, mansidão e não-resistência, como fundamentos de uma sociedade justa.
Acima de tudo, condenava a violência, seja qual fosse o seu objetivo.
Esta doutrina prega a abolição do
Estado e do capitalismo, e a reorganização social mediante associações de
produtores. Tem, pois, pontos de contatos com duas outras filosofias radicais:
o socialismo e o anarquismo.
Mas, quanto aos meios de produção,
em lugar de passarem ao Estado (como querem os socialistas), o sindicalismo
acha que deveriam ser entregues aos respectivos sindicatos de produtores, os
quais se tornariam, assim, seus proprietários e administradores. Os
trabalhadores, somente nas suas atividades como produtores, seriam governados
pelos dirigentes sindicais. O sindicato viria a ser, em parte, substituto do
Estado.
Na estratégia do sindicalismo
destaca-se a ação direta: greves e sabotagens, a fim de se impor aos patrões
capitalistas.
O mais destacado sindicalista foi
George Sorel (1847-1922). O prestígio do sindicalismo limitou-se a poucos
países. Foi muito popular na França, na Itália e nos Estados Unidos. Mas sua
influência começou a decair depois de 1920.
O
autor é Professor de Economia. rberga@tutopia.com.br