Origens do Capitalismo
“A elite brasileira é socialista no discurso público, e capitalista na sua vida pessoal e privada”. (Ricardo Bergamini).
O capitalismo nasce da acumulação de capitais, sobretudo dos valores mobiliários. As grandes fortunas constituem excedentes de riqueza, isto é, capitais que podem ser aplicados em atividades lucrativas. A atual sociedade capitalista caracteriza-se por três formas de capitalismo: comercial, financeiro e industrial.
O capitalismo já
existia na Antigüidade – Oriente, Grécia e Roma – porém em forma incipiente. No
mundo antigo, a riqueza estava representada, sobretudo, pela propriedade
imobiliária (terras, casas), os instrumentos de produção, as mercadorias e os
escravos. A riqueza se achava em mãos de duas classes: nobres e sacerdotes. Não
existia uma grande indústria: a economia era doméstica.
No Império Romano, as
classes ricas moravam nas suas propriedades rurais, que – com a escravatura –
desempenhavam o papel preponderante nesta economia natural. Havia manifestações
capitalistas (sociedades financeiras, bancos, cambistas de moedas), mas em
pequeno grau. A vida urbana tinha pouca importância; e são as cidades,
justamente, as que vão permitir, mais tarde, o desenvolvimento do grande
capitalismo.
Durante a Idade Média,
a riqueza esteve em poder dos senhores feudais (grande nobreza e alto clero). A
igreja se opunha ao empréstimo com juros, ao comércio do dinheiro, à
especulação sobre câmbio e títulos de valores. (Estes pontos de vista serão
alterados pelo individualismo econômico do século XVI e pela Reforma, sobretudo
de Calvino).
Segundo Werner
Sombart, a acumulação dos capitais começou a ser realizada, freqüentemente, por
pessoas que arrecadavam os impostos, as taxas eclesiásticas e as rendas dos
grandes proprietários. Mas a organização capitalista, na Idade Média, é ainda
esporádica e embrionária. Durante séculos, sobretudo desde a época de Carlos
Magno, a economia é quase unicamente rural; as cidades não passam de refúgios e
fortalezas, e as corporações impedem a existência do capitalismo industrial, no
sentido moderno. Por outra parte, o comércio medieval – afirma Sombart – tem
lucros pequenos.
As Cruzadas e as
diversas guerras (dos Cem Anos, das Duas Rosas) arruinaram grande número de
senhores feudais, o que facilitou a emancipação dos servos. Muitos destes
passaram a viver em “burgos”, onde se dedicaram à pequena indústria e
contribuíram para a formação da burguesia.
A expansão do comércio
internacional – sobretudo desde o século XIII, após as Cruzadas – deu início à
formação do Capitalismo Comercial. O capitalismo comercial surgiu
principalmente na Itália (Gênova, Pisa, Veneza) e nos Países Baixos. O comércio
marítimo com o Oriente permitiu às repúblicas italianas a acumulação de grandes
capitais. Por sua vez, os Países Baixos constituíram o principal empório entre
o Oriente e o Norte da Europa.
Prosperaram, então, as
famosas feiras internacionais (onde apareceu a ”letra de feira” e, mais tarde,
a “letra de câmbio”). As feiras acabaram sendo substituídas pelas “Bolsas”,
onde os novos valores mobiliários (os “papéis”) adquiriram a supremacia
econômica.
Este novo capitalismo,
os descobrimentos marítimos de portugueses e espanhóis (afluxo de mercadorias e
de metais preciosos), os progressos do crédito público, o câmbio
(indispensável, por causa da diversidade de moedas), o desenvolvimento dos
bancos – provocaram o aparecimento do Capitalismo Financeiro.
Intensificaram-se,
então, as especulações financeiras: empréstimos a juros, prática do câmbio,
compra de bens prediais, hipotecas lucrativas. Os comerciantes e capitalistas
eram, sobretudo, burgueses. Foram eles que financiaram as viagens dos
descobrimentos, conquistas e colonizações. Surgiu, assim, o poderio econômico
da burguesia, o qual foi emparelhado com a da nobreza (aristocracia rural) e
tornou-se dominante após a Revolução Francesa.
O
autor é Professor de Economia. rberga@tutopia.com.br