A FALÊNCIA DO ESTADO BRASILEIRO
Enquanto o estado
designa a organização de uma comunidade, a idéia de nação
exprime esta comunidade em si mesma, cuja unidade é vivida, praticada
e reconhecida pelas consciências, fora mesmo da ordem que o estado aí
faz reinar. Já o patriotismo é o sentimento do valor dessa comunidade.
Qual poderá ser o fundamento dessa unidade subjacente?
Fichte, em seu "Discurso à Nação Alemã
(1813), declara ser a comunidade de raça que constitui o fundamento
da nação. Na realidade, uma mesma nação envolve
grupos étnicos bem diversos. No decorrer da história, a mistura
das populações foi tal, que é bem difícil distinguir
com precisão os grupos étnicos, além das grandes distinções
entre brancos, negros e amarelos. Outros invocam a comunidade do solo. A pátria
é, etimologicamente, a "pátria terra", terra dos pais,
esse lugar da terra onde nascemos (nação deriva de "natus",
nascido), ao qual múltiplos laços comuns nos unem. Mas os árabes,
por exemplo, possuem um sentimento muito intenso de sua comunidade e formavam,
de qualquer modo, uma nação desde o tempo em que eram nômades.
Um fator essencial de unidade nacional é a comunidade da língua,
pois é esta que serve de veículo ao patrimônio cultural
da nação, entretanto, esse fator não é decisivo.
Na antigüidade, o fundamento da unidade nacional era, freqüentemente,
a religião, cada cidade tinha seus deuses, combatia por seus deuses
ao mesmo tempo que por seu lar.
Nenhum dos fatores supracitados é suficiente para cria uma nação.
A nação repousa antes de tudo, sobre a vontade de seus membros,
sobre sua plena consciência e seu desejo de formar uma nação.
Foi o que disse Renan em uma página célebre: "Uma nação
é uma alma, um princípio espiritual". Duas coisas que,
verdadeiramente, não são mais que uma, constituem essa alma.
Uma está no passado, a outra agora, no presente. Uma é a posse
comum de rico legado de lembranças, a outra é o consentimento
presente, o desejo de viver em conjunto, a real vontade de continuar a fazer
valer a herança que recebemos indivisa. Possuir glórias comuns
no passado, uma vontade comunitária no presente, haver realizado grandes
coisas em conjunto, querer realizar mais ainda, eis as condições
essenciais que formam um povo. Os Estados Unidos tomaram consciência
de si mesmos e surgiram como nação na guerra de independência
contra a Inglaterra.
Mas o indivíduo não pertence unicamente a uma família,
ele é também membro de um estado, de uma nação,
de uma pátria. Estes três termos não devem, aliás,
jamais serem confundidos. O estado designa uma figurativa "comunidade
jurídica", isto é, um conjunto de indivíduos submetidos
a, uma mesma legislação, a uma mesma autoridade política.
Mais precisamente, aliás o estado designa esta autoridade política
em si mesma. O estado é o governo e o conjunto de estruturas pelas
quais ele manifesta sua autoridade. A nação aparece, de preferência,
como uma "comunidade natural e espontânea", pelo menos como
uma comunidade resultante da história e passado, reconhecida e aceita
por cada um de seus membros. Quando, por outro lado, os membros da comunidade
nacional não reconhecem suas próprias exigências nas decisões
de seu governo, dizemos que a nação não se reconhece
mais no estado. Surgindo a agitação revolucionária, manifesta
em um conflito entre a nação e o estado.
Entre a idéia de nação e de pátria, pelo contrário,
a distinção é mais sutil. A pátria é, na
verdade, "o nome sentimental da nação". Já
a idéia de pátria designa uma "comunidade afetiva"
A pátria é no fundo, a própria nação, enquanto
objeto de apego, veneração e amor por parte dos indivíduos.
Se observarmos o momento nacional, fica claro de que, quem está em
crise não é a nação brasileira, mas sim, o estado
brasileiro Acompanhando o que vem ocorrendo com o Brasil, vamos observar que
a nação é sempre superior ao estado, haja vista estar
o estado brasileiro na (UTI) desde longa data, sem encontrar soluções
políticas, não agindo, apenas reagindo. Ao contrário
do estado, a nação, mesmo desorganizada, agindo de forma apenas
intuitiva, vem provocando uma revolução econômica no país,
quando, a cada dia, cada vez mais pessoas abandonam a economia formal, ingressando
na informalidade, negando-se com isso, terem um sócio (estado) corrupto,
mentiroso e perdulário em seus negócios.
Mas, infelizmente no Brasil, grande parte de nossa elite política,
empresarial e econômica estão sempre preocupadas com sua própria
sobrevivência (tesouraria), não se apercebendo das mutações
constantes da sociedade. Assim sendo, ignorando as verdadeiras causas dos
problemas nacionais, jamais encontrarão soluções. Suas
propostas serão sempre com base nas conseqüências, ou seja,
repetitivas e em círculos. Em um sentido figurativo poderíamos
afirmar que: "as decisões políticas são sempre no
sentido de segurar o rabo do cachorro esperando que ele abane o corpo".
Então qual o problema de tanta decadência? Simplesmente, o atual
ciclo do estado brasileiro acabou, se degradou por si só. Nenhum estado,
em qualquer nação do planeta, conseguiria sobreviver à
dois estelionatos eleitorais (Cruzado e Real), sendo que, desta última,
a forma de esconder da população a verdadeira realidade dos
fatos foi muito bem articulada, tanto é verdade que, de uma forma geral,
a sociedade não está entendendo nada, em sua grande maioria
estão apenas perplexos. Mesmo profissionais de alto nível, também
não estão entendo, visto que jamais houve qualquer comentário,
claro e incisivo, nos meios de comunicação, de que o Brasil
vivi uma crise cambial, desde o ano 1995. Um buraco que, em cinco anos e quatro
meses atingiu a criminosas cifra de US$ 302,5 bilhões. Recursos, sendo
muito bem aproveitados nos paraísos fiscais das ilhas Cayman e Bahamas
Porém, na minha opinião, a sentença de morte do estado
brasileiro foi assinada no dia 28.01.99, quando um burocrata de carreira do
executivo, estando Ministro da Fazenda, assina e divulga um comunicado oficial
do governo brasileiro, orientando o mercado financeiro internacional à
não mais concederem empréstimos à dois estados da Federação,
Minas Gerais e Rio Grande do Sul, não tendo havido, na ocasião,
nenhuma manifestação institucional sobre o assunto, tanto da
Presidência, Senado, Câmara, Tribunais de Justiças, Forças
Armadas, Governadores, Prefeitos etc. O fato passou batido pela grande maioria,
como simples ato administrativo de rotina, no entretanto, para o público
externo foi uma decepção geral, gerando um clima de insegurança
nos negócios sérios com o Brasil.
Imaginem senhores que, sendo fornecedores de uma grande rede de supermercados,
ao surgirem alguns problemas em duas de suas filiais, o tesoureiro do grupo
divulgasse um comunicado orientando seus fornecedores à não
mais venderem para suas duas filiais, além de informar que o assunto
seria de responsabilidade dos referidos gerentes das lojas. Teria cabimento?
Ao estado brasileiro restará apenas dois destinos, daqui por diante:
"ou aguardamos sua dolorosa morte súbita, ou praticamos uma eutanásia".
Somente um novo projeto, com novos atores, conseguiriam mudar sua atual imagem
negativa e decadente, tanto perante ao público interno, quanto ao externo.
Florianópolis, 05 de Julho de 2000
Ricardo Bergamini