BRASIL! PAÍS DO MALBORO
Não há
dúvida de que optando pela dependência em relação
aos dominadores, o Brasil se conformou com o subdesenvolvimento perpetuo,
o desemprego e a divida eterna, conseqüências inevitáveis
com o domínio atual de vastos setores estratégicos da economia
nacional pelas empresas estrangeiras.
Se pudéssemos calcular os
recursos despendidos pelo país, durante anos, no sentido de eliminar
gradativamente sua alta dependência em quase todos os setores econômicos
através de concessões de benefícios, incentivos fiscais
e apoio financeiro, sem resultados substancialmente positivos. Não
ocorreu o esperado, a fixação local de tecnologia, sem a qual
continuaremos na dependência total de seu detentor, ainda que fabricando
localmente o produto. Essa tecnologia se retirada por qualquer motivo, determina
a suspensão total da fabricação do produto no Brasil,
invalidando qualquer esforço governamental de incentivo à indústria
respectiva.
O Brasil alicerçou seu projeto de desenvolvimento em corporações
multinacionais cujo segredo foi o controle da tecnologia através dos
"pools de patentes" e do controle aos possíveis concorrentes,
assim como as antigas colônias, impedindo a formação de
quadros que porventura pudessem futuramente dirigir nações emergentes
como o Zaire, Angola e Moçambique e outras nações africanas,
não possuindo atualmente um quadro mínimo de médicos,
engenheiros e administradores, indispensáveis à organização
de um ESTADO-NAÇÃO.
O know-how não se transfere por contrato de licença. Adquiri-se
em trabalho árduo nas salas de aula de desenho e oficinas de trabalho,
e os ingleses já em 1945 questionaram a sabedoria da indiscriminada
busca de licenças da fabricação, alegando ser melhor
forçar empresas britânicas a despenderem esforços próprios
no desenvolvimento de tecnologia independente
Reconhecendo este problema, países como o Japão, os Estados
Unidos e a França nunca permitiram que fossem alienadas as suas indústrias
estratégicas, assim como o ex- chanceler alemão Helmut Schimid
declarou, por ocasião da venda de algumas ações da Mercedes
Benz ao Kuwait que a Alemanha toleraria a aquisição de cervejarias
e indústrias de importância estratégicas reduzida, sabendo
no entanto, impedir a venda de empresas de ponta, como a KWU Kraftwerkunion,
produtora de usinas atômicas.
O esquema de divisão internacional do trabalho reservou ao Brasil até
o presente momento a função de mercado regulador de oferta e
produção e fornecedor de mão-de-obra barata. Onde se
situaria o preço internacional do petróleo e das demais matérias-primas,
se todos os países alcançassem o nível de desenvolvimento
e consumo dos sete grandes (G7) Assim sendo, o Brasil dominado, exporta sapatos
a salários de fome, a fim de poder pagar importações
dos produtos de alta tecnologia de suas matrizes para as suas filiais.
E assim, com o objetivo de manter a mão-de-obra brasileira competitiva
em relação a países de miséria perene, como a
Índia, e assegurando ao mesmo tempo nível de renda e de vida
condizentes, aos executivos brasileiros de corporações internacionais
(Local White Help), verdadeiros marajás dos interesses alheios,
para isso foi necessário aumentar a concentração de renda,
a mortalidade infantil, a subnutrição, a doença e a miséria
de vastos setores de nossa população.
A eliminação da iniciativa privada nacional criou uma classe
abastada de burocratas (responsáveis pelo lastro legal, via congresso),
outra de gerentes e executivos de empresas estatais (dilapidando patrimônio
estatal para reduzir seu valor de venda) e finalmente, o Mercado Financeiro
financiando, via meios de comunicação, colocações
de forma maciça de mentiras, em tais proporções nos últimos
anos, que se transformaram em verdades para os menos cuidadosos, os quais
se aliam às corporações multinacionais, cujas aspirações
se voltam ao acompanhamento do padrão de vida das nações
ricas. Aos poucos empresários nacionais, espécie em extinção,
que sobrevivem à discriminação tradicional, somente um
conselho: "Vendam suas empresas, o mais rápido possível,
pelo preço que ainda puderem obter, e tornem-se gerentes". A
outros setores da vida nacional, no entretanto, não se apresenta esta
opção e os seus níveis de remuneração não
acompanham a bonança salarial dos gerentes privilegiados dos interesses
alheios, fato que se reflete nas origens cada vez mais humildes dos quadros
das Forças Armadas, tendendo transformarem-se em "Escoteiros do
Ar, do Mar e da Terra".
Ao país atualmente poucas alternativas sobrariam, em caso de mudança
de política. Caberia reduzir gradualmente a níveis compatíveis
com a segurança nacional, o controle estrangeiro exercido em todos
os níveis da vida nacional, passando pelo condicionamento ao consumo
da mente infantil dos brasileiros através dos atrativos do "País
do Malboro" apresentados diariamente pelos nos meios de comunicação,
ao controle da tecnologia e das eventuais alavancas de desestabilização
dos suprimentos, ou seja, de peças e materiais vitais à manutenção
da vida econômica da nação. O país certamente pagaria
um preço elevado por querer iniciar um desenvolvimento próprio,
mas este preço seria inferior ao atualmente pago. Não caberia
hostilizar o capital estrangeiro, que sempre será bem vindo, e que
elevada contribuição ainda poderia trazer ao progresso do País,
porém operando dentro do mercado de crédito, e não mais,
no mercado financeiro. Urge, isto sim, colocar sua contribuição
nos devidos termos, reduzir sua influência em todos os setores invertendo
a situação atual, mediante favorecimento de iniciativas brasileiras,
como simples medida de segurança nacional, certamente afetada no presente
estágio terminal, no qual representantes de corporações
multinacionais já controlam os mais vastos campos de nossa vida econômica
e política.
O medo perante a situação irresponsável de corporações
gigantes se alastra pelo mundo, alarmando até o Senado norte-americano.
Algumas poucas corporações controlarão a vida econômica
do mundo. Vastos setores da opinião mundial prevêem as corporações
multinacionais com força de atuação econômica irresponsável,
além do alcance das "leis nacionais".
O controle da força incontida das corporações multinacionais
e dos cartéis se impõe não só por razões
do desenvolvimento econômico ou de justiça social, mas também
pelo bem da liberdade individual de cada homem. Sem medidas concretas e urgentes
de apoio à iniciativa e a produção local, somente resta
uma pergunta a fazer. De quê e como viverão as gerações
brasileiras futuras ?
Ao Brasil caberia adotar as armas das corporações multinacionais,
organizadas em rígidos cartéis, alocando participação
de mercado à empresa nacional (agreed upon market share). O mercado
brasileiro deveria ser considerado patrimônio nacional.
Florianópolis, 23 de Junho de 2000
Ricardo Bergamini