PAPAI TINHA RAZÃO.
Ricardo Bergamini
A primeira dama D. Ruth Cardoso,
buscando esclarecer notícia veiculada pela imprensa sobre um seu pronunciamento
durante reunião realizada em 20/10/2000, na Federação
da Indústria do Rio de Janeiro, dentre outras considerações,
assim se expressou: "Estamos em um país que exige eficiência
para enfrentar situações de extrema pobreza herdadas do passado.
É preciso modificar processos burocráticos ineficientes e isto
está sendo feito".
Baseando-me nas informações do Ministério da Fazenda,
relativas as contas do governo de FHC (jan/95 a ago/00), concordo que
o país exige eficiência na gestão dos recursos públicos
e que é preciso modificar processos ineficientes que vem agravando
a pobreza, e desorganizando toda a Nação. Por outro lado, discordo
de D. Ruth ao afirma que o governo, presidido por seu marido, está
"colaborando" para a felicidade geral da Nação. Vou
demonstrar, matematicamente, que tal colaboração está
levando a nossa Pátria amada ao caos econômico-financeiro.
Aliás, os desencontros de toda ordem presentes no dia-a-dia nacional,
desmanchando o País, ratificam o que papai aprendera na Cartilha do
"Partidão" e que pregava como um ferrenho militante comunista:
"Desorganizando-se a economia, desorganizar-se-á a Nação
inteira". É o que vem acontecendo com nosso Brasil. Senão,
vejamos sucintos indicadores macroeconômicos: 1) Perfil dos Gastos
Públicos o governo de FHC obteve uma receita total de
23,66% do PIB, tendo aplicando 28,40%, como se segue:12,47%(Administração
Financeira);6,69%(Previdência Social);2,00% (Saúde); 1,80% (Defesa);
1,36% (Educação); 0,90% (Empregos), e 3,18% com as demais atividades
da União; 2) Déficit Público - as receitas
correntes cresceram em torno de 32%, em relação ao período
90/94. Considerando-se também as receitas de capital, o crescimento
total comparativo foi de 49%. Mesmo com tal incremento de arrecadação,
o governo acumula um déficit fiscal nominal de R$ 229,8 bilhões,
ou seja, 4,74% do PIB. 3) Política Tributária
comparando-se o volume de arrecadação do ano corrente
com o período anterior de jan/95 a dez/99, teremos: Receitas
Tributárias- aumentaram da média mês de R$ 5,0
bilhões para R$ 6,3 bilhões, em virtude da não atualização
da tabela do Imposto de Renda; Receitas de Contribuições-
saíram da média mês de R$ 7,3 bilhões para R$ 11,1
bilhões, em razão do aumento da alíquota do Cofins de
2% para 3%, bem como do aumento da alíquota do CPMF de 0,20% para 0,38%,
atuais 0,30%; Receitas Totais: de R$ 16,0 bilhões migraram
para R$ 23 bilhões. 4) Estoque da Dívida Externa Líquida
(Pública e Privada) - no ano de 94 era de US$ 107,4 bilhões
(19,77% do PIB). Em agosto/00 de US$ 201,4 bilhões (35,46% do PIB).
Houve, portanto, um crescimento real de 79,36%; 5) Estoque da Dívida
Total Líquida (Interna e Externa) - saltou de R$ 87,8 bilhões
em dez/94 (25,13% do PIB) para R$ 672,0 bilhões em ago/00 (66,03% do
PIB). Crescimento real de 162,75%. Considerando também a dívida
externa do setor privado, da ordem R$ 250,8 bilhões (24,65% do PIB),
a dívida total é, na realidade, de R$922,8 bilhões (90,68%
do PIB). 6) Política de Juros- para maior clareza, menciono
2 conceitos básicos: a) Juros primário: é
a remuneração de referência financeira fixada pelo Banco
Central (BC) para o mercado competitivo de títulos, na negociação
da rolagem da dívida pública, isento de compulsório.
Não necessariamente os juros pagos pelo BC são com base na taxa
de referência. Em jun/00 custou 16,21% a.a., em jul/00 15,71% a.a.,
em ago/00 migrou para 20,06% a.a., apesar dos juros primários estarem
fixados em 16,5% a.a.; b) Efeito Multiplicador de Base: é
um índice calculado pelo BC para regular a liquidez do mercado Através
deste índice, no período de jul/99 a ago/00, os juros mínimos
de mercado seriam de 74,56% a.a. ou 4,75% a m, sem considerarmos os impostos,
taxas e lucro dos bancos.7) Balança Comercial
o comportamento da nossa balança comercial nos últimos vinte
anos foi a seguinte: superávit 79/84 (US$15,9 bilhões); 85/89
(US$ 67,3 bilhões); 90/94 (US$ 60,3 bilhões). No período
95/00, pela primeira vez, geramos déficit comercial, atingindo seu
ápice em nov/99 (US$ 25,1 bilhões), fechando em agosto de 2000
em US$ 23,7 bilhões; 8)Necessidade de Financiamento do Balanço
de Pagamentos - foi, nos últimos vinte anos, como segue:79/84
(US$96,3 bilhões); 85/89 (US$ 67,2 bilhões); 90/94 (US$ 86,9
bilhões). No período jan/95 a ago/00 migramos para mal explicados
US$330,8 bilhões Comparando com o período 90/94, houve crescimento
real de 113,37%. 9) Gastos com Pessoal da União
migrou de R$ 35,8 bilhões em 94 para uma previsão da ordem de
R$ 56,0 bilhões em 2000, crescimento de 56,42% Os bem aquinhoados freqüentam,
desde há muito as manchetes o que me escusa de maiores considerações.
E o povão, como está? Está com a corda no pescoço.10)
Previdência Social - as medíocres taxas de crescimento
econômico, obtidas a partir da implantação da atual política
econômica, gerou a total desordem salarial que vige no país,
em todos os níveis de governo. Para essa caótica situação
não há cálculo atuarial conhecido que corrija tal distorção
econômica.11) Crescimento Econômico - a partir de
85, até o presente momento, tivemos um medíocre crescimento
econômico da ordem de 2,59% ao ano. Portanto, insuficiente e causador
dos desequilíbrios atuais que provocam conflitos, badernas, etc, criando
o caldo de cultura para o quanto pior, melhor. 12) Taxa de Desemprego
- em 94, a taxa média de desemprego, medida pelo IBGE, foi de 5,1%.
Em ago/00 ficou em 7,1%, sendo a média dos oito primeiros meses de
2000 de 7,6%, e de 7,8% no mesmo período de 99. Com base na média
do ano corrente houve um crescimento do nível de desemprego de 49,02%,
quando comparamos ao ano de 94. Também é importante ressaltar
que a tendência de melhora no ano de 2000 foi conquistada com 84% das
ocupações sem carteira assinada. .
Por todos esses números, acima, pode-se afirmar: falta eficiência
na administração da nossa economia e a modificação
que D. Ruth diz como sendo implementada está desorganizando toda a
Nação. Finalizando, devo reconhecer: papai tinha razão.
O autor é economista <rberga@tutopia.com.br>
Florianópolis, 8 de Novembro de 2000