O PENSAMENTO DO PROFESSOR EUGÊNIO GUDIN
Artigo publicado no jornal "O Globo" do Rio de Janeiro, edição de 10/04/72
O social-capitalismo
Falando por ocasião
do jantar comemorativo da Revista do Jornal do Brasil, referiu-se o Ministro
Delfim Neto ao regime econômico predominante no Brasil em termos muito
felizes dizendo:
"O que está acontecendo realmente com o Brasil é que ele
finalmente perdeu a vergonha (podia alternativamente ter dito perdeu a covardia)
de ser um país capitalista. A partir do momento em que o país
passou a assumir essa condição, as coisas começaram a
marchar muito mais naturalmente e melhor"
É que, por um misto de ignorância e de covardia, a palavra capitalismo
passou a ter uma conotação sinonímica de regime retrógrado,
desumano, perverso. Não se indagava da origem da expressão nem
de seu significado original. A expressão capitalismo foi impropriamente
cunhada por Marx, seu maior inimigo. Como se no regime que tem esse nome o
fator capital fosse o elemento predominante, quando, como sabe qualquer economista,
o rendimento oriundo do trabalho entra por cerca de 65% no produto e o capital
por cerca de 10%. Mais ainda, o capitalismo que Marx invectivava era muitíssimo
diverso do que hoje se entende pelo mesmo nome. Era de fato um regime desumano
em que o proletariado era quase escravo, em que mulheres e crianças
trabalhavam 10 e mais horas por dia, em que não havia sombra de legislação
social nem imposto de renda apreciável. Hoje ninguém, por mais
direita que seja, deixará de abominar semelhante regime.
O capitalismo de hoje, com suas classes operárias organizadas, dignificadas
e participantes, é coisa inteiramente diferente. É o que poderia
chamar de social-capitalismo.
As previsões de Marx, que eram simples extrapolações
do que acontecia no seu tempo, foram inteiramente desmentidas. Em vez do empobrecimento
das massas nos países capitalistas, verificou-se uma melhoria de padrão
de vida, sem paralelo na história. Por isso é que na Conferência
Internacional de Brissago, em 1961, eu tive ocasião de dizer ao professor
soviético que dela participava, que eu só conhecia uma ditadura
do proletariado, a dos Estados Unidos, e uma escravidão do proletariado
a da Rússia. Basta dizer que nos EUA a melhoria de produtividade
e às vezes mais é totalmente absorvida pelos aumentos
dos salários. Em vez da quase subnutrição e do mínimo
biossocial previsto por Marx na sua teoria da mais valia, o que se vê
nos EUA é o operário dono de automóvel.
Não faz mal repetir os algarismos que tantas vezes tenho citado da
evolução da remuneração do capital na primeira
metade deste século nos Estados Unidos, país conhecido como
a fortaleza do capitalismo:
Quadro Demonstrativo da Participação % no PIB dos EUA
| Anos | Trabalho | Capital |
| 1900 1918 |
57,0
|
19,6
|
| 1919 - 1928 |
62,4
|
19,0
|
| 1929- 1938 |
65,6
|
19,2
|
| 1940 |
63,9
|
14,0
|
| 1950 |
64,3
|
9,8
|
| 1955 |
68,8
|
9,9
|
Quadro Demonstrativo
das Horas Semanais Trabalhadas e Ganho Real (1899-1900 base 100)
| Anos | Horas Semanais | Remuneração Real % |
| 1889-1890 |
60,0
|
90
|
| 1899-1900 |
59,0
|
100
|
| 1909-1910 |
56,6
|
116
|
| 1919-1920 |
47,4
|
113
|
| 1929-1930 |
42,1
|
134
|
| 1939-1940 |
38,1
|
192
|
| 1949-1950 |
40,5
|
248
|
| 1955 |
40,7
|
286
|
Esses números
provam mais do que quaisquer argumentos ou discursos.
O que há é uma grande
covardia diante da moda de se dizer esquerdista, possuidor de idéias
avançadas (conquanto indefinidas) e de sentimentos humanos.
Dessa espécie de esquerdistas
ou progressistas é que disse George Bernanos, com muita propriedade:
"Os católicos de esquerda ou de extrema esquerda sempre me deram
a impressão de uma retaguarda de caudatários da tribo marxista
em marcha para a terra prometida", acrescentando:
"Parece que já não há outra maneira de amar os pobres
senão a de ser marxista."
O nosso atual regime sócio-econômico, que propus designar por
social-capitalismo, a saber, adoção de processos capitalistas
para atingir objetivos sociais, desenha-se bem nas várias instituições
como INPS. FGTS, PIS, siglas já bem conhecidas.
Importa contudo não perder de vista que o sistema capitalista, da iniciativa
privada, deve ter o lucro como incentivo ou melhor, como isca. Porque como
escreveu o grande scholar J. Viner:
"Se porém a estrutura do sistema tributário é tal
que o empresário tem que suportar todos os prejuízos que ocorram,
só tendo direito a uma parte mínima dos lucros, se houver, ele
dará então preferência a aplicações de renda
fixa e não assumirá o risco das iniciativas que promovem o progresso
econômico do País."
Sobre a eficiência dos processos capitalistas, comparados com os que
clamam por melhor distributivismo, escreveu o Professor Robert Solow:
"Se compararmos dois regimes econômicos, um baseado na livre iniciativa
e incentivo de lucro com taxa de progresso de 4% ao ano, digamos, e o outro
de melhor distribuição de renda, com uma taxa de 2%, veremos,
ao fim de alguns anos, que os pobres do primeiro sistema são mais ricos
do que os remediados do segundo."
E o Professor Dewhurst observou que:
"De todas as grandes nações industriais, a que mais se
tem apegado ao capitalismo privado é a que mais se aproximou do ideal
socialista de prover a abundância em uma sociedade sem classes."
Q.E.D.