O PENSAMENTO DO PROFESSOR EUGÊNIO GUDIN
Artigo publicado no jornal "O Globo" do Rio de Janeiro, edição de 16/11/70
O Social-militarismo
"Si lEtat est fort, il nous écrase, sil est faible nous perissons Paul Valéry
Paris, outubro
O neologismo é do conhecido escritor Therry-Maulnier, membro
da Academia, ao comentar o caso da Bolívia, em que um general de esquerda
Torres afastou um general da direita Miranda, sem que
se saiba ainda se ele vai consolidar o seu poder e, nesta hipótese,
se vai refrear as pressões esquerdistas, a exemplo do que fizeram alguns
de seus antecessores, ou se, ao contrário, vai radicalizá-las,
na inspiração castrista ou maoísta, ou ainda- o que Thierry
considera mais verossímil vai-se manter em uma posição
de justo equilíbrio, à moda peruana, isto é, diz Thierry,
no que se pode chamar de social-militarismo, posição para que
tende naturalmente a corporação militar oriunda que geralmente
é das classes médias da nação.
O fenômeno não é
peculiar à América Latina, diz o autor. Gamal Nasser era militar
de carreira; o Coronel Boumédiène reina na Argélia; uma
junta tomou o poder na Líbia; assim também na Indonésia,
desde a queda de Sukano e de seu regime pró-chinês. A Espanha
vive há 30 anos sob um regime instituído pelos militares; o
ditador iugoslavo outorgou-se o título de marechal; na Grécia
os coronéis tomaram o poder há mais de três anos e parecem
ter dado a esse poder uma estabilidade que tem faltado a vários dos
regimes sul-americanos.
A origem de classe média explica uma certa hostilidade dos militares
contra as potências do dinheiro, espécie de anticapitalismo virtual
ou real, que se coaduna bastante com o nacionalismo, quando o capital é
estrangeiro, como também explica o combate à corrupção
e aos excessos de desigualdade social. É a esse conjunto de tendências
que Thierry propõe chamar de social-militarismo.
Há, a meu ver, no ensaio de Thierry-Maulnier, duas deficiências.
A primeira é a de não se referir ao perigo, sempre latente,
do social-militarismo, como governo de tipo autoritário que é,
descambar para a direita abusando da força de que dispõe, ou
para a esquerda, seduzido pela tentação de popularidade. É
que nem sempre se acha um general-presidente como Castello Branco para declarar
que "aceitava conscientemente a impopularidade que lhe advinha do cumprimento
do dever". O social-militarismo só medra aliás nos países
em que é notória a debilidade da estrutura política e
social e em que o mecanismo democrático é deturpado pela demagogia,
pela carência de educação política e pela pobreza.
Nesses países, onde não raro as eleições são
viciadas, os partidos políticos não traduzem, na realidade,
a opinião e as tendências sedimentadas dos vários setores
da população. São antes partidos personalistas e oligárquicos
do que expressões de ideologia política. A livre escolha dos
governantes pelo voto da parte mais numerosa e mais ignorante da população,
como diz Macaulay, resulta no desastre e no caos. Foi o que aconteceu no Brasil,
nos governos Kubitschek e Goulart, e agora no Chile, onde se implanta o comunismo
pelo voto de uma minoria.
Numa carta de Salvador Madariaga ao General Ongania, ex-presidente da Argentina,
dizia esse conhecido pensador que "a eleição do presidente
por sufrágio universal direto tem provocado, em todos os continentes,
o que constitui a mais desastrosa caricatura da democracia que a História
da humanidade conhece".
Nos países de estrutura política e social consolidada, em que
o mecanismo democrático funciona, como a Inglaterra, a Escandinávia,
os Estados Unidos, a Holanda e poucos mais, não há evidentemente
lugar para a intromissão das classes armadas na política, nem
portanto para o social-militarismo.
Mas nos nossos países, ao invés, as Forças Armadas
constituem um elemento de coesão, de tradição e de ordem
a que o sistema político do país não pode deixar de recorrer
nas horas de crise.
Outra deficiência do ensaio é não distinguir entre
crises de caráter político, social ou econômico (como
a do Brasil de 1964 ou da França de 1958) e os simples golpes de Estado
(ôte-toi de là que je my mette), infelizmente tão
freqüentes em alguns países do nosso continente, da Ásia
e da África.
A revolução de 64 no Brasil não tem qualquer analogia
com golpe de Estado. Foi, pode-se dizer, uma revolução nacional.
O primeiro general-presidente do novo regime, era um grande brasileiro desambicioso,
que recusou a prorrogação de seu mandato. E o terceiro foi para
o Governo sabidamente contra sua vontade.
Contudo, se bem que a gênese de nossa Revolução de 1964
não tenha sido o produto de qualquer quartelada nem de ambições
de militares, os governos que dela emergiram apresentam algumas das características
do social-militarismo, inclusive a do risco deformatório a que acima
me referi.