O PENSAMENTO DO PROFESSOR EUGÊNIO GUDIN
Artigo publicado no jornal "O Globo" do Rio de Janeiro, edição de 25/05/70
Os problemas
Quais são
os setores mais vulneráveis da civilização ocidental,
perguntamos agora, que os desafiantes escolheram para sobre eles fazer convergir
suas atividades? Em outras palavras, quais as mazelas, fraquezas ou enfermidades
mais vulneráveis às tentativas de solapamento do conjunto?
É interessante observar que os problemas mais graves com que se defronta
a civilização são todos de eclosão ou pelo menos
de focalização recente.
Não me recordo, por exemplo, de ter ouvido falar, antes da II Guerra,
da poluição do ar e das águas, que agora tais proporções
assume, que há quem levante dúvida sobre a capacidade da biosfera
para proporcionar à humanidade, por muito tempo, um ambiente habitável.
A Unesco organizou, recentemente, uma conferência intergovernamental
sobre as condições da manutenção da vida, sob
todas as suas formas, na superfície da Terra. A NATO cria um comitê
para tratar dos desafios à sociedade moderna. Por fim as Nações
Unidas anunciam, para 1972, uma conferência mundial sobre o mesmo tema.
A principal contribuição para esta poluição progressiva
e ameaçadora é a do crescimento demográfico, em proporções
nunca antes imaginadas. Em 10 mil anos, para sermos modestíssimos no
algarismo, a humanidade atingiu um efetivo de 3,5 bilhões de indivíduos.
Em 30 anos, a saber, de 1970 a 2000, estima-se que este número duplicará.
E não é possível pensar em resultados das providências
que se adotarem contra essa ameaça, antes do ano 2000, mesmo se as
medidas de redução voluntária fossem tomadas desde já
em escala mundial.
Não é o fator demográfico único responsável
pela poluição, os resíduos provenientes da expansão
industrial, sempre crescente, infestam a atmosfera de bióxido de enxofre,
hidrocarbonados, acrilatos, etc,; de outro lado, os veículos automóveis
aos milhões, cujos gases de descarga são o mais grave fator
de poluição do ar das cidades. Nos países em que predominar
a produção de energia nucleotérmica, o aquecimento das
águas dos rios constituirá outro grave fator de desoxigenação
e degradação dos rios.
A humanidade está se dando conta, pela primeira vez, de que a capacidade
dessa tênue película terrestre de ar e de água, designada
biosfera, que permitiu a vida humana no planeta (guiçá, no único
deles), não é ilimitada. Ninguém duvida que a inteligência
e o engenho humanos, quando não o próprio instinto de sobrevivência,
acabarão por controlar essas ameaças de morticínio em
massa. Mas daqui até lá, especialmente nos próximos 30
anos?
Dificilmente achariam os desafiantes que vimos enumerando, melhor tema para
desmoralizar a civilização que querem destruir, sem aliás
sugerir o que pretendem criar no seu lugar.
Outra grande interrogação com que a Esfinge resolveu nos interpelar
depois da II Guerra é a da hipertrofia demográfica, não
só por sua contribuição, que assinalamos, à poluição
da biosfera, mas por suas próprias conseqüências quantitativas.
Se nenhuma providência for tomada, a superfície terrestre utilizável
já não será suficiente nos próximos 100 anos para
suportar o formigueiro humano.
Isto não quer dizer que o problema da excessiva natalidade afeta a
curto prazo e, uniformemente, todas as nações. Admite-se por
exemplo que a França, como o país de menor densidade demográfica
dentre as nações da Europa Ocidental, procure equipar-se às
demais, de vez que tem para isso os recursos necessários; como se admite
que a Rússia, que se apropriou de imensas extensões de terras
na Sibéria, estude os meios de ocupá-las "à medida
que para isso venha a dispor de recursos".
Este mesmo argumento é aqui aplicado, leviana e impensadamente, ao
caso do Brasil e de sua Amazônia semideserta, sem indagar do capital
(estradas, comunicações, habitação, alimentação,
educação e saúde) "de que não dispomos"
para a tarefa. É que o combate à miséria forçosamente
deve preceder à expansão demográfica, sob pena de provocarmos
uma proliferação da miséria só comparável
à da Índia.
O fato de ser enorme nossa extensão territorial, nem sempre aliás
composta de terras dadivosas, e serem muito limitadas nossas disponibilidades
de capital, obriga-nos a ter paciência e a nos conformarmos em escalar
sucessivamente as etapas de nosso povoamento.
Mas o problema que ora ventilamos não é brasileiro; é
universal. O controle da natalidade é um imperativo categórico,
não só no sentido moral que lhe dava Kant mas para o próprio
objetivo de preservação humana.
Ainda outro problema ao qual só se deu grande ênfase depois da
II Guerra foi o do desenvolvimento econômico, ou melhor, da disparidade
de riqueza e de padrão de vida entre os povos dos países que
já atingiram um alto grau de progresso econômico, e os chamados
subdesenvolvidos, ou, por eufemismo, "países em via de desenvolvimento".
Não é que o problema já não existisse antes da
II Guerra, mas que só nos últimos 25 anos tem sido focalizado
em termos quantitativos de produto nacional e de produto per capita. É
que as estatísticas econômicas desse gênero são
relativamente recentes.
Passam então os desafiantes, a que nos referimos nos artigos anteriores,
a exigir, em altas vozes, dos países ricos, que promovam, sem mais
tardar, o desenvolvimento dos subdesenvolvidos. Ora, em primeiro lugar, o
problema dos países subdesenvolvidos depende sobretudo deles próprios,
especialmente de seus valores humanos. A contribuição vinda
do exterior, ainda quando recebida com simpatia (o que não é
sempre o caso), é simplesmente complementar.
Empunhando os cartazes demagógicos ou levianos de Myrdal ou de Prebisch,
investem nossos desafiantes contra o suposto "círculo vicioso
de pobreza (Myrdal) ou de espoliação através das relações
de troca (Prebisch)", argumentos que não resistem a uma análise
mesmo superficial, bastando ver como o Japão, o Canadá, a Austrália,
a Nova Zelandia, sem contar a Alemanha de 1945, se desvencilharam brilhante,
e ainda recentemente, do subdesenvolvimento e da pobreza.
Da desigualdade econômica entre nações passam os desafiantes
a incentivar as disparidades entre pobres e ricos dentro de cada nação,
especialmente no caso dos Estados Unidos, problema cuja solução
progressiva se demonstra com os algarismos da distribuição da
renda e da disseminação da educação, nesse e em
outros países. Sem que isso dispense novos esforços nesse sentido.
Ao problema da pobreza liga-se nos Estados Unidos o problema racial, apenas
do enorme progresso que se tem realizado nesse país em matéria
de ascensão e de enriquecimento dos negros.
A esses verdadeiros problemas, que são reconhecidos, estudados e por
vezes em início de solução em vários países,
acrescentam os desafiantes, em sua fúria de destruição,
os vários slogans demagógicos ao alcance da pena ou da oratória,
como os dos "conglomerados gigantescos", do suposto "domínio
do consumidor pelo produtor", etc.
Desgraçadamente essa campanha de demolição movida pelos
desafiantes está encontrando nos Estados Unidos a colaboração
de uma grave agitação interna oriunda de um erro trágico
de política militar praticado pelo governo desse país. Em seu
papel histórico de principal defensor da civilização
ocidental contra a imposição do comunismo pela violência,
praticaram os Estados Unidos, primeiro na Coréia e agora no Vietnam,
o erro de pensar que a ação catalítica de sua presença
e algum auxílio militar seriam suficientes para repelir as hordas invasoras.
Em um ou outro caso, forças militares consideráveis de terra,
mar e ar foram enviadas mas sem permissão de atacarem as bases donde
partia a agressão (vide recentes declarações do almirante
americano Sharp, que acaba de deixar o Comando Geral do Pacífico).
No caso da Coréia isso custou a demissão do maior soldado que
a América produziu na II Guerra, o General MacArthur; no caso do Vietnam
uma grande parte do povo americano cansado de suportar durante anos uma guerra
em que a vitória militar é proibida, revolta-se contra seu governo,
numa quase guerra civil, de que se aproveitaram os desafiantes, especialmente
os universitários e guerrilheiros para intensificar a agitação
e promover a anarquia.
Os desafiantes não merecem a consideração nem o apoio
da população sensata dos países em que operam, primeiro
porque suas armas são a demagogia e a violência, segundo porque
não apresentam qualquer sugestão construtiva.
O progresso humano não cessa de engendrar novos perigos, mas ele também
cria novos meios para conjurá-los.