O PENSAMENTO DO PROFESSOR EUGÊNIO GUDIN
Artigo publicado no jornal "O Globo" do Rio de Janeiro, edição de 22/05/70
Outros desafiantes
Quando a fumaça
branca da chaminé do Vaticano anunciou, em outubro de 1958, a eleição
de João XXIII, conhecido por sua figura de camponês humilde,
muitos acreditaram tratar-se de um pontificado interino, para esperar o advento
de um líder mais capaz. Com surpresa geral, porém, o novo Papa,
pouco depois de sua eleição, anunciou a convocação
de um Concílio Ecumênico (Vaticano II), que há 90 anos
não se reunia, para reconsiderar a estrutura da Igreja e seus objetivos.
Daí resultou o que muitos católicos consideram como a maior
convulsão por que já passou a Cristandade desde a Reforma E
assim a Igreja, considerada imutável, como que uma tábua de
salvação em um mundo estável, enveredou por uma série
de transformações que vieram alterar profundamente a fisionomia
de uma das maiores instituições humanas.
Começou o Vaticano II por estabelecer o princípio do colegiado
em que os bispos participam da direção da Igreja. Em certas
matérias eles passam a ter autoridade para tomar resoluções
sem referência à Cúria Romana. Uma larga margem de descentralização
e de independência veio reduzir substancialmente a autoridade coordenadora
e universal do Santo Padre.
Ecumenismo, celibato dos padres, controle da natalidade, culto dos santos,
liturgia, interpretação da Bíblia, nada escapou ao debate
do Concílio A imprensa católica nunca gozou de tanta liberdade,
inclusive de crítica à própria estrutura da Igreja. Freiras
vestidas de saia e blusa, semidesligadas dos conventos; desaparecimento de
organizações católicas tradicionais, de ensino e de beneficência;
padres enveredando, com ou sem batinas, pelo campo do debate público
em matéria social, política e econômica.
A falta de preparo e de conhecimento nesse terreno tornou-os presa fácil
da demagogia e da subversão, muitos deles se convertendo em caudatários
da ala marxista, salvo o ateísmo.
Toda a sorte de lugares-comuns e de fórmulas demagógicas foi-se
incorporando ao repertório revolucionário dos padres (padres
de passeata, aqui chamados), como "o da concentração cada
vez maior da riqueza em menor número de mãos", "da
proliferação sempre crescente da miséria", da espoliação
dos países subdesenvolvidos pelos países ricos, etc.
Em capítulo intitulado "A Igreja e o Capitalismo", do livro
Para um Brasil melhor, tive ocasião de mostrar a indigência analítica
e fatual desses slogans. Mas a verdade é que o semidesmantelamento
da Igreja Católica, ao ponto de padres e conventos abrigarem guerrilheiros,
ou mesmo participarem de guerrilhas, tornou-se mais um fator de solapamento
e de desafio aos alicerces da civilização.
Uma terceira ala que se incorpora com gosto ao desafio da ordem social e econômica
deste nosso fim de século e à propaganda subversiva contra ela
tramada, tem sido designada pela denominação global de intelectuais,
nela abrangidos escritores, artistas, professores, cientistas e até
pensadores.
É que os acontecimentos da Grande Depressão dos anos 30 e da
Grande Guerra dos anos 40 infligiram aos povos de civilização
ocidental um trauma espiritual e moral que atingiu largos setores dessa civilização,
deixando-os atônitos, num sentimento de protesto contra o que acabara
de acontecer, mas sem saber como poderiam remediar nem como construir algo
de novo.
É, data venia, uma turba heterogênea em que se unem espécies
e motivações variadas. Para os escritores, por exemplo, a aspiração
de granjear fama, notoriedade e admiração é uma tentação
perigosa a que poucos resistem, para fugir ao cruel anonimato a que de outro
modo estariam condenados. Alguns, como dizia um conhecido humorista, passaram
da forma capilar e indumentária, que se descaracterizou pela generalização,
para o desafio ostensivo à ordem social.
Outros, sinceros e ignorantes, dizem-se marxistas, sem jamais terem aberto
as páginas do O capital, muito menos abordado sua análise, marxismo
que se resume em inconformação com as injustiças desse
mundo e em aspirações generosas e literárias por um mundo
melhor.
Outros, verdadeiros cientistas acantonados nas torres de marfim de suas especialidades
(para saber cada vez mais sobre cada vez menos), alheios em grande parte ao
mundo em que vivem e sem gosto nem tempo para sobre ele pensar, aderem, geralmente
por idealismo, às correntes da Reforma.
Outros, ainda, sobretudo os artistas, à busca de originalidade e de
imaginação, se envergonham de pertencer ou de se conformar às
regras de uma sociedade ordenada, que não lhes supre inspiração.
E a boêmia, variante dessa categoria, que é fundamentalmente
incompatível com a ordem.
Finalmente, os pensadores que se comprazem em mostrar como o mundo deveria
ser dirigido, mas que deixam a outros a tarefa da execução.
Quando acontece que as circunstâncias os conduzem aos postos de comando,
como no caso de Lenine, passam por duras desilusões diante da flagrante
contradição entre ideologia e realidade, entre inspiração
democrática e despotismo efetivo. Em seu último livro, antes
da tomada do poder, Lenine escrevia que a gestão de uma sociedade socialista
seria simplificada a ponto de os próprios trabalhadores se encarregarem
em turmas rotativas, de controlar as funções do Estado! Lenine
julgava que se poderia gerir a economia de um país como se gere uma
usina. Surgiram, em vez disso, a maior máquina burocrática jamais
erigida (contra a qual Stalim bradava em vão) e um despotismo de estarrecer
o mundo civilizado.
Por fim o marxismo, que na feliz expressão de Raymound Aron "é
uma arma prodigiosa de propaganda e de combate, que fascina por seus equívocos
tanto quanto por suas promessas."
Mas o marxismo, em si, não é um elemento novo de desafio, como
os que estamos aqui procurando alinhar.
O que é novo no marxismo e que está atacando com violência
na vanguarda das forças do desafio são o maoísmo, a filial
fidelista e a guerrilha organizada, sendo esta última a forma de ataque
especialmente aplicada à América Latina, tendo em Cuba sua base
principal.
Subsidiariamente, o anarquismo, que também não é novo
e cujo último congresso realizou-se em Carrara em setembro de 68, tendo
Cohn-Bendit por vedeta e sem maior sucesso que os anteriores.